O odor chega antes da vista. Ainda a dezenas de metros da entrada dos souks, o ar se carrega de cominho, coentro torrado e a pungente fragrância da harissa seca. Os souks de Túnis estão localizados no coração da Medina, o centro histórico da capital tunisina que a UNESCO incluiu na lista do Patrimônio da Humanidade em 1979, reconhecendo um tecido urbano que permaneceu substancialmente intacto por mais de mil anos. Entrar nesses becos significa caminhar sobre um calçamento desgastado por gerações de comerciantes e compradores.
A Medina de Túnis se desenvolveu a partir do século VII, expandindo-se significativamente durante o período hafside, entre os séculos XIII e XVI, quando a cidade se tornou um dos centros comerciais mais ativos do Mediterrâneo. Os souks não são um mercado único, mas uma rede de becos cobertos, cada um tradicionalmente dedicado a uma categoria mercantil específica: os perfumistas, os tecelões, os vendedores de especiarias, os fabricantes de babouche. Essa organização por ofícios ainda é parcialmente visível hoje, e representa um dos detalhes mais concretos que o visitante atento pode reconhecer ao caminhar pelas ruas estreitas.
O souk das especiarias: um catálogo de cores e aromas
O coração olfativo dos souks é o Souk El Attarine, o mercado dos perfumistas e das especiarias, que se encontra nas proximidades da Grande Mesquita Ez-Zitouna, a mesquita do Olival fundada no século VIII. As bancas exibem montanhas de açafrão em estigmas, pimenta vermelha moída para a harissa, pétalas de rosa secas, flores de jasmim, cúrcuma e misturas de ras el hanout nas quais se reconhecem até uma vinte de ingredientes diferentes. As cores vão do laranja intenso da páprica ao ocre do gengibre em pó, até o bordô escuro dos cravos-da-índia.
Os mercadores também exibem remédios herbais tradicionais: raízes de alcaçuz, sementes de nigela, folhas de henna e preparações utilizadas na medicina popular tunisiana há séculos. Muitos vendedores falam francês além do árabe, e estão acostumados a explicar as propriedades das ervas aos visitantes estrangeiros. Pedir para cheirar as especiarias antes de comprar não é apenas aceito, mas encorajado: é parte do ritual comercial local.
Sonhos e vozes: o ritmo cotidiano do mercado
O paisagem sonora dos souks é estratificado. Há o martelar rítmico dos ferreiros e dos trabalhadores do cobre que vem dos becos mais internos, o canto quase mecânico dos vendedores que chamam a atenção, o pisar das babouches no calçamento, e de vez em quando o chamado à oração que filtra das mesquitas próximas e cobre por alguns minutos todos os outros sons. As galerias cobertas por arcos de pedra ou por telhados de madeira criam uma acústica particular que amplifica e mistura essas camadas sonoras.
Nos becos mais estreitos, encontram-se carregadores com carrinhos carregados de mercadorias, que pedem passagem com um grito curto e decidido. É um dos detalhes mais autênticos do funcionamento logístico do souk: ainda hoje as mercadorias se deslocam em grande parte à força de braços, porque as ruelas medievais não permitem a passagem de veículos motorizados. Parar um momento para deixar passar um carrinho é uma oportunidade para observar a vida real do mercado, longe da superfície turística.
As pessoas: comerciantes e artesãos entre tradição e cotidiano
Muitos dos comerciantes dos souks gerenciam lojas de família há gerações. Não é raro ouvir um vendedor de especiarias contar que o pai e o avô ocupavam a mesma banca. Essa continuidade é visível também na arquitetura: algumas lojas conservam portas em madeira entalhada e decorações em estuque que datam de séculos atrás, integradas sem solução de continuidade na vida comercial cotidiana. As lojas menores e menos iluminadas, longe dos caminhos principais, tendem a ter preços mais próximos aos locais e menos voltados para o turismo.
Ao lado dos vendedores de especiarias trabalham artesãos que produzem no local: tecelões que operam em teares manuais, sapateiros que reparam as babouches com pedaços de couro, e bordadeiras que decoram tecidos com fios dourados. Observar esses artesãos em ação não requer nenhuma compra: é suficiente parar com respeito e, muitas vezes, uma conversa surge.
Como visitar os souks: conselhos práticos
O melhor momento para visitar os souks é de manhã, entre as 9 e as 12, quando os comerciantes estão frescos, as mercadorias estão expostas da melhor forma e a multidão ainda não atingiu a densidade do início da tarde. Na manhã de sexta-feira, muitas lojas abrem mais tarde ou permanecem fechadas para a oração do meio-dia, portanto, é preferível escolher outro dia da semana. No domingo, por outro lado, o mercado está geralmente aberto e menos lotado em comparação com o sábado.
Para chegar aos souks, pode-se partir da Place de la Kasbah ou da Avenue de France, entrando na Medina a pé: não existem endereços precisos nas vielas internas, mas se orientar em direção ao minarete da Grande Mesquita Ez-Zitouna é a maneira mais eficaz de encontrar o Souk El Attarine. Levar notas em dinares tunisianos em valores pequenos facilita as compras, pois muitas lojas não aceitam cartões de crédito. Calcular pelo menos duas horas para uma visita que vá além da superfície é uma estimativa realista.