O abraço à estátua de São Tiago é o momento que milhares de peregrinos aguardam por semanas, às vezes por meses, caminhando através de montanhas e planícies. Quando finalmente se atravessa a Porta Santa e se entra na nave da catedral, o peso das mochilas parece de repente desaparecer. Não é retórica: é a física estranha de um lugar onde a emoção coletiva se torna quase palpável no ar.
A Catedral de Santiago de Compostela ergue-se no coração da cidade galega homônima, no noroeste da Espanha. Sua construção começou em 1075, desejada pelo rei Afonso VI de Castela e Leão, e prosseguiu por séculos através de sucessivas estratificações estilísticas. O resultado é um edifício que mistura o românico original das naves com as torres barrocas da fachada do Obradoiro, completadas em 1750 pelo arquiteto Fernando de Casas Novoa. Aqueles dois torres gêmeas que se elevam por mais de 74 metros são a imagem icônica que todo peregrino reconhece ao chegar na praça principal.
O interior: pedra, ouro e o abraço de São Tiago
Entrar na catedral significa mergulhar em uma penumbra densa, interrompida pelos raios de luz que filtram através das janelas altas. A nave central românica é larga e solene, com pilares maciços que marcam o espaço em direção ao altar-mor. No centro do presbitério encontra-se o baldaquino barroco, sobrepujado por uma estátua dourada de São Tiago Apóstolo. Para alcançá-la é necessário subir uma pequena escada atrás do altar: o ritual prevê abraçar a estátua pelas costas, um gesto que os peregrinos realizam após percorrerem centenas de quilômetros.
Abaixo do altar-mor encontra-se a cripta, onde segundo a tradição estão conservadas as relíquias do apóstolo. O acesso é gratuito e o corredor estreito cria inevitavelmente filas nos momentos de maior afluência. Vale a pena esperar: a urna prateada e a atmosfera recolhida da cripta oferecem um momento de silêncio autêntico, difícil de encontrar em outro lugar na catedral durante a alta temporada.
O Botafumeiro: quando o gigante voa entre as naves
O Botafumeiro é um dos objetos litúrgicos mais famosos da Europa. Trata-se de um enorme turíbulo — o queimador de incenso — que pesa cerca de 53 quilos e, quando é acionado, oscila suspenso a uma corda longa mais de 60 metros através do transepto da catedral, alcançando velocidades consideráveis e alturas impressionantes. O espetáculo dura poucos minutos, mas deixa sem fôlego.
A cerimônia do Botafumeiro não ocorre em todas as missas: é reservada para as missas solenes, em particular a do Peregrino que se celebra todos os dias ao meio-dia, mas o Botafumeiro é utilizado apenas em ocasiões especiais ou quando um grupo de peregrinos o solicita e contribui para as despesas. Para ter certeza de vê-lo em ação, é aconselhável verificar o calendário litúrgico no site oficial da catedral ou informar-se diretamente no escritório do peregrino. Os oito puxadores que manobram a corda são chamados de tiraboleiros: sua coordenação é precisa e quase coreográfica.
A Praça do Obradoiro e os arredores
A Praça do Obradoiro é o coração pulsante da chegada: é aqui que os peregrinos se sentam no chão, tiram as botas e muitas vezes choram. A praça é delimitada em quatro lados por edifícios históricos — o Pazo de Raxoi, o Colegio de San Jerónimo, o Hostal de los Reyes Católicos (hoje parador de luxo, construído no século XVI para acolher os peregrinos doentes) e, naturalmente, a fachada da catedral. Circular em torno da praça e observar os quatro edifícios juntos dá a medida de quanto este espaço foi projetado ao longo dos séculos como uma cenografia sagrada.
A catedral dispõe também de um museu em seu interior, acessível mediante pagamento, que conserva peças de arte românica, tapeçarias de Goya e a coleção de Botafumeiros históricos. O bilhete do museu inclui o acesso à terraço, de onde se desfruta de uma vista próxima das torres barrocas e dos telhados da cidade velha, declarada Patrimônio da UNESCO em 1985.
Dicas práticas para a visita
A entrada na catedral é gratuita, enquanto o museu custa cerca de 10 euros. O horário de abertura varia conforme a estação, mas em geral a catedral é acessível desde as primeiras horas da manhã até à noite. O conselho mais útil é chegar antes das 9 da manhã nos meses de verão: a afluência de peregrinos e turistas se torna massiva a partir da metade da manhã, tornando difícil permanecer com calma diante do altar ou na cripta. Quem chega a pé após o Caminho geralmente tem prioridade nas filas para o abraço à estátua, mas não é uma regra escrita.
Santiago de Compostela é acessível de avião através do Aeroporto Internacional de Lavacolla, a cerca de 12 quilômetros do centro, ou de trem pela estação de Santiago. A cidade velha é totalmente percorrível a pé e a catedral fica a poucos minutos de qualquer ponto do centro histórico. Usar sapatos confortáveis é óbvio, mas menos óbvio é saber que o piso da catedral pode ser escorregadio: as pedras polidas por séculos de peregrinação não perdoam solas lisas.