As paredes de arenito se apertam até quase se tocarem, e nesse corredor de rocha vermelha o silêncio tem uma consistência física. O Cânion Khazali, uma fenda na massa do monte homônimo no coração de Wadi Rum, guarda em suas paredes inscrições que datam de cerca de 2.000 anos atrás, traçadas pelos nabateus e pelas populações thamúdicas que atravessavam esses desertos muito antes que o turismo se tornasse uma palavra. Não se trata de uma reconstrução nem de uma vitrine museológica: as figuras de animais, os textos em alfabeto nabateu e as representações humanas estão lá, ao alcance das mãos, expostas aos mesmos ventos que as tocaram por dois milênios.
Chegar ao cânion requer uma breve caminhada no deserto a partir da aldeia de Wadi Rum, ou um traslado em jipe organizado pelos operadores turísticos locais. A garganta é estreita — em certos pontos a largura é de poucos metros — e se estende por cerca de 100 metros em profundidade na rocha. Entrar significa deixar do lado de fora o sol violento do deserto jordaniano e se encontrar em um ambiente onde a luz filtra de cima de maneira oblíqua, desenhando sombras precisas sobre as inscrições.
As inscrições: o que se vê realmente
As inscrições nabateias visíveis nas paredes do Cânion Khazali pertencem a um período compreendido entre o século I a.C. e o século I d.C., a época de máxima expansão do reino nabateu com capital em Petra. Os Nabateus eram comerciantes e construtores de aquedutos, e suas inscrições neste cânion estavam provavelmente ligadas a rituais religiosos ou a sinalizações de passagem ao longo das rotas de caravanas. Ao lado das escritas nabateias aparecem também inscrições thamúdicas, mais antigas, com representações de camelos, caçadores e figuras estilizadas de seres humanos.
Um turista atento pode distinguir as duas tradições epigráficas observando a diferença nos caracteres: o alfabeto nabateu tem formas mais cursivas e arredondadas, enquanto as inscrições thamúdicas tendem a ser mais geométricas e lineares. Algumas figuras de camelos são esculpidas com uma precisão surpreendente, com as patas em movimento e o pescoço alongado, como se quem as traçou quisesse parar um instante real da vida nômade naquela paisagem.
O deserto ao redor: dunas, silêncio e luz
Wadi Rum é um vale desértico no sul da Jordânia, a cerca de 60 quilômetros de Aqaba, classificado como patrimônio da UNESCO em 2011 pelo seu valor cultural e natural. A paisagem que cerca o Cânion Khazali é a de um deserto de rocha e areia vermelha, com maciços de arenito e granito que se elevam até 1.800 metros. As dunas que se formam aos pés dessas formações mudam de cor ao longo do dia: rosa pálido ao amanhecer, laranja intenso nas horas centrais, quase roxo quando o sol se põe.
As noites em Wadi Rum estão entre as experiências mais nítidas que um deserto pode oferecer. A ausência de poluição luminosa torna o céu noturno visível com uma densidade de estrelas difícil de encontrar em outros lugares. Dormir em um acampamento no deserto — muitos operadores turísticos oferecem essa opção a partir de cerca de 40-60 euros por pessoa — significa acordar com o silêncio absoluto e a luz que muda a cada minuto na rocha vermelha.
Como visitar o Cânion Khazali: dicas práticas
O melhor momento para visitar o cânion é nas primeiras horas da manhã, quando a luz é suave e as temperaturas ainda são suportáveis. Nos meses de verão (junho-agosto), as temperaturas no deserto de Wadi Rum podem ultrapassar os 40 graus centígrados nas horas centrais, tornando qualquer caminhada cansativa e potencialmente perigosa sem a devida hidratação. Os meses de março, abril, outubro e novembro oferecem condições climáticas muito mais favoráveis.
A entrada na área protegida de Wadi Rum requer o pagamento de um bilhete de acesso, geralmente incluído no custo dos passeios organizados com jipes que partem da aldeia. É possível visitar o cânion a pé, mas muitos visitantes optam pelo jipe para cobrir mais locais em um dia. Dentro do desfiladeiro, é importante não tocar nas inscrições e não tentar fazer moldes ou tirar fotografias com flash direto na rocha: a pedra arenosa é sensível e as gravações, apesar de terem resistido por séculos, permanecem frágeis. Usar sapatos fechados é essencial, pois o fundo do cânion é irregular e em alguns pontos escorregadio.
Por que o Cânion Khazali permanece na memória
Não é a grandiosidade que torna este lugar difícil de esquecer. O Cânion Khazali não tem as dimensões do Grand Canyon nem a imponência de Petra. O que permanece é a proporção entre a escrita humana e o silêncio que a rodeia: alguém, há dois mil anos, pegou uma ferramenta pontiaguda e gravou nesta rocha algo que queria durar. Dura. E o deserto ao redor não mudou muito sua substância: mesma areia vermelha, mesmo vento, mesma luz que cai obliquamente nas horas do pôr do sol nas paredes de arenito.